Sem projeto próprio e refém do extremismo, a direita tradicional abriu espaço para o radicalismo bolsonarista, que transformou a intolerância em método e a democracia em alvo.

Marcos Verlaine*

O bolsonarismo engoliu a direita brasileira. O que antes se apresentava como campo político conservador, liberal ou de centro-direita tornou-se, em larga medida, subordinado a movimento que despreza limites institucionais, alimenta a polarização e trata adversários como inimigos a serem eliminados da vida pública.

Não foi ocupação repentina. A direita tradicional abriu as portas, tolerou os excessos e apostou que poderia instrumentalizar a força eleitoral de Jair Bolsonaro sem pagar o preço político dessa aliança.

O resultado desse processo foi o inverso: perdeu autonomia, identidade e capacidade de estabelecer os próprios limites. O bolsonarismo enredou a direita e aniquilou todos os líderes desse espectro.

O bolsonarismo não é conservador, é reacionário; não é liberal, é neoliberal.

Preço da submissão

Partidos, lideranças e setores empresariais que se apresentavam como defensores da responsabilidade fiscal, da estabilidade institucional e da liberdade econômica passaram a conviver com ataques às instituições, ameaças golpistas e campanhas de desinformação.

Em nome da disputa pelo poder, relativizaram princípios que diziam defender. Essa agenda coloca em risco a democracia e o Estado de Direito.

O bolsonarismo, por sua vez, demonstrou habilidade para impor sua agenda. Transformou a lealdade pessoal à família Bolsonaro em critério de pertencimento, converteu a política em guerra cultural permanente e passou a exigir que seus aliados escolhessem entre a submissão e a marginalização.

A derrota do senador Esperidião Amin (PP-SC) é emblemática. O clã Bolsonaro exportou Carlos Bolsonaro para Santa Catarina e o impôs como candidato ao Senado, atropelando o próprio Amin, antigo aliado de primeira hora, que acabou derrotado e ficará sem mandato.

A direita que imaginava usar Bolsonaro como instrumento acabou usada por ele.

Radicalismo não é conservadorismo

É preciso distinguir as coisas. Ser conservador não significa rejeitar a democracia, atacar o sistema eleitoral ou considerar ilegítimo qualquer resultado que contrarie os próprios interesses.

Tampouco o liberalismo econômico exige submissão a lideranças autoritárias.

Quando a direita abandona essas distinções, o extremismo deixa de ser corrente dentro do campo conservador e passa a comandá-lo.

O debate sobre projetos de país cede lugar à fabricação de inimigos, enquanto problemas concretos da população — emprego, salário, saúde, educação e segurança — são instrumentalizados pela disputa ideológica.

O resultado é o empobrecimento da política, incapaz de construir consensos e cada vez mais dependente do confronto.

Democracia não é refém

O avanço do bolsonarismo não elimina as diferenças dentro da direita, mas expõe a fragilidade de quem, por cálculo eleitoral, aceita abrir mão da própria identidade. A democracia exige oposição firme, disputa de ideias e alternância de poder. Não exige tolerância com projetos que procuram corroer as próprias regras.

A questão central, portanto, não é se a direita deve existir ou disputar eleições. É se terá autonomia para apresentar propostas, respeitar as instituições e reconhecer os limites impostos pela Constituição.

Enquanto continuar refém do bolsonarismo, a direita brasileira permanecerá presa à agenda de movimento radicalizado que vive da polarização e precisa de inimigos para sobreviver.

O bolsonarismo não apenas deslocou a direita para a extrema direita. Ensinou seus aliados a confundir força com intimidação, lealdade com obediência e vitória eleitoral com licença para tudo.

Romper essa lógica é responsabilidade de quem ainda acredita que a política deve servir à sociedade. E não transformar o País em propriedade de uma família ou de um grupo.

(*) Jornalista analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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