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Caso Master recoloca no centro do debate os limites entre risco privado e custo social

Por Rita Serrano*

Quando um banco quebra, o prejuízo raramente fica restrito aos seus controladores. O caso Master recoloca no centro do debate os limites entre risco privado e custo social, o papel do FGC e a necessidade de governança efetiva — sobretudo quando um banco público como o BRB e recursos de trabalhadores entram na conta.

E o que torna esse episódio ainda mais grave é que ele conecta, em cadeia, a mecanismos sistêmicos e regulatórios do mercado bancário (como o Fundo Garantidor de Crédito – FGC), um banco público (BRB) e a recursos de trabalhadores (fundos previdenciários). Não é debate abstrato. É dinheiro de gente real.

Por outro lado, é possível prevenir e demonstrar compromisso com o interesse público; e esse exemplo foi dado por técnicos da Caixa Asset que, em parecer técnico, desaconselharam a compra de R$ 500 milhões em títulos do Master. Senão, vejamos como este cenário pode ser analisado em seis camadas fundamentais:

Master: um teste do sistema — e dos incentivos

O banco Central liquidou o Master; na sequência, m houve medidas envolvendo instituições do conglomerado (como a liquidação da Will Financeira, em janeiro de 2026), sinalizando um quadro que não se resolve apenas com “troca de gestor” ou “nota de esclarecimento”.

O ponto não é demonizar o mercado. É reconhecer que, em qualquer sistema financeiro, se os incentivos premiam risco excessivo e se as linhas de defesa falham, alguém ganha no curto prazo e muitos perdem no médio.

FGC: a conta é dos bancos e da sociedade

O FGC paga depósitos e investimentos garantidos em quebras bancárias (até os limites regulamentares), evitando pânico. No caso Master, os números são gigantes: estimativas amplamente reportadas apontam desembolso de R$ 48 bilhões (um terço de todo o orçamento anual do Bolsa Família, que atende 20 milhões de famílias) só para o Master e o Will Bank, com consumo relevante de liquidez do fundo e necessidade de recomposição.

Recompor os depósitos dos bancos no FGC, poderá gerar aumento do custo de funding e spread, além do custo público direto, com a participação dos bancos públicos, que estão entre os maiores depositantes do fundo.  Quando a fatura sistêmica sobe, a sociedade sente no crédito e nos preços.

BRB e fundos: dinheiro público e poupança do trabalhador em jogo

A crise fica ainda mais delicada quando atinge instituições públicas e fundos previdenciários de trabalhadores.

O Banco Central determinou que o BRB precisa recompor cerca de R$ 5 bilhões em capital, valor que corresponde a aproximadamente 77% do seu patrimônio líquido atual, estimado em R$ 6,5 bilhões, dados de 2025; Essa proporção revela a gravidade da situação: trata-se de uma recomposição quase integral do capital do banco, o que pressiona diretamente sua capacidade de crédito e exige soluções estruturais, como aporte do controlador público (o Governo do Distrito Federal), venda de ativos ou emissão de instrumentos de capital. As consequências vão além da contabilidade: o risco é de redução da confiança dos clientes, encarecimento do crédito e impacto sobre a estabilidade financeira regional, mostrando que a crise não é apenas interna ao BRB, mas sistêmica.

Preguntas ainda não respondidas nesse processo: Por que a governança falhou em identificar as fraudes? Quais interesses e pressões foram determinantes nas aprovações das operações que já haviam sido questionadas por outros agentes do mercado? Qual a responsabilidade dos controladores nesse processo?

Com relação aos fundos previdenciários — isto é, poupança de trabalhadores e servidores — a tolerância institucional ao risco “criativo” deveria ser zero. Aqui não cabe “aposta”. Cabe prudência.

Privatização do BRB é solução? O Master prova que não

Muitos jornalistas e especialistas do mercado começaram a cogitar que nesse contexto o caminho é a privatização do BRB. Mas tratar privatização como panaceia é trocar a pergunta certa por uma solução fácil e duvidosa.

O Master comprova, justamente que o privado nem sempre é modelo a ser seguido.  Portanto, o eixo honesto de análise não é “público versus privado”. É: governança versus oportunismo. Se o modelo de decisão for frágil, se os controles forem decorativos, se a responsabilização for inexistente, a natureza jurídica vira detalhe — e o dano, será consequência inevitável.

Obvio, que não podemos tratar somente da irresponsabilidade dos dirigentes, mas também de quem os indica, os controladores da empresa, no caso específico do BRB, o acionista majoritário é o governo do Distrito Federal, que não pode se eximir do processo.

O emblemático caso da Caixa Asset, onde técnicos cumpriram seu dever e foram punidos

O melhor contraste deste caso vem da Caixa Asset, subsidiária de fundos da Caixa federal. Em julho de 2024, ganhou repercussão o fato, amplamente noticiado, de que profissionais da área técnica teriam emitido parecer contrário à compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do Banco Master, apontando risco elevado; eles acabaram destituídos de cargos na sequência, justamente por cumprirem seu papel.

Portanto, um sistema que retalia a prudência e premia o atalho cria as condições para repetir o desastre. E não há “privatização” que resolva cultura organizacional e incentivos perversos.

O que fazer agora: qualificação, responsabilidade e controle social

Se quisermos parar de normalizar a “lei de Gérson” na alta finança, há medidas objetivas:

Responsabilização exemplar: Além de punir dirigentes e administradores por danos ao erário e aos clientes, como definido na legislação, é urgente medidas contra os controladores, afinal são eles que indicam os dirigentes das empresas.

Qualificação obrigatória dos dirigentes: critérios técnicos e reputacionais objetivos, seleção transparente e vedação de nomeações sem capacidade comprovada, especialmente onde há recursos públicos e previdenciários.

Proteção ao parecer técnico e às áreas de controle: garantir independência de gestão de riscos, conformidade e auditoria; registrar divergências formais; proibir e punir retaliação a quem barra operação inadequada.

Transparência e controle social com participação na governança: ampliar prestação de contas e acesso público a informações essenciais (respeitando sigilo legal) e instituir/fortalecer a participação de clientes, empregados e representantes da sociedade nos conselhos de administração, para elevar vigilância, reduzir captura e aumentar legitimidade das decisões.

Fiscalização mais rápida e coordenada: atuação tempestiva e integrada dos órgãos supervisores e de controle, com punições efetivas para desincentivar oportunismo e prevenir reincidência.

No fim, o recado é simples: a ganância desmedida não vira crise sozinha; ela só ocorre quando encontra brecha, terreno fértil, complacência e ausência de consequências. E é por isso que o exemplo da Caixa Asset importa tanto: ele mostra que existe, dentro das instituições, gente preparada para proteger o interesse público — desde que o sistema também proteja essas pessoas.

*Rita Serrano é presidente do DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), ex-presidente da Caixa Federal e doutoranda em Administração

Fonte: ICL

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