Novos tempos nas relações institucionais e governamentais
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- Categoria: Agência DIAP

Neuriberg Dias*
Diante de um ambiente político e regulatório mais complexo, cresce o movimento de organizações e setores da sociedade no sentido de estruturar áreas de Relacionamento Institucional e Governamental (RIG), conscientes dos riscos estratégicos de não acompanhar de forma qualificada esse cenário.
Uma forma útil de entender esse contexto é por meio do conceito de VUCA — Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade. O termo surgiu no ambiente militar, no U.S. Army War College, no período pós-Guerra Fria, mas se encaixa com bastante precisão na realidade política, regulatória e econômica atual.
Essa leitura dialoga com as análises de Moisés Naím, que chama atenção para uma mudança profunda na forma como o poder se organiza e se manifesta. Hoje, ele é fragmentado e, muitas vezes, transitório. Isso pode entendido em três movimentos:
1) multiplicidade de atores: o poder já não está concentrado apenas em governos ou grandes instituições — ele também passa por empresas, organizações da sociedade civil, grupos de interesse e até indivíduos;
2) mobilidade: ideias, informações, capitais e pessoas circulam com uma velocidade inédita, o que reduz barreiras, altera dinâmicas tradicionais de controle e, não raro, intensifica a polarização;
3) mentalidade: crescem as expectativas em torno de transparência, participação e legitimidade, ao mesmo tempo em que aumenta a cobrança por respostas rápidas e eficazes por parte das instituições.
Dessa forma, pode-se entender porque o poder é exercício de forma mais instável. Em muitos casos, é mais fácil conquistá-lo do exercê-lo ao longo do tempo reforça as abordagens dos dois autores sobre esses desafios.
Isso tudo explica por que essas mudanças não são apenas conjunturais, mas também estruturais. Cada vez mais, presidentes eleitos enfrentam dificuldades para entregar suas agendas, diante de um processo decisório complexo e transparência no acesso a informação.
No Brasil, os dados ajudam a ilustrar esse cenário. O lobby ainda é bastante concentrado em grandes corporações — cerca de 73% das empresas do setor têm faturamento superior a R$ 1 bilhão, segundo o Anuário Origem da Abrig. As Big Techs – grupo seleto de gigantes tecnológico - são exemplo de empresas que fazem um lobby muitas vezes invisível sobre as propostas de regulação de plataformas de redes sociais e Inteligência Artificial, em tramitação no Congresso Nacional.
E, por sua vez, a crescente profissionalização quando se observa o aumento de pessoal que atua na área de relações institucionais e governamentais: a presença de equipes em departamento internas de RIG vem crescendo, e a proporção de empresas com cinco ou mais profissionais na área saltou de 31%, em 2019, para 56%, em 2024.
Esse avanço mostra que influenciar o processo decisório depende, cada vez mais, de presença qualificada, constante e bem articulada junto a quem decide no poder. No caso brasileiro, o Poder Legislativo passou a ter um papel ainda mais central — especialmente após o impeachment de Dilma Rousseff, durante a pandemia, e diante das recentes transformações climáticas, tecnológicas e geopolíticas.
Nesses novos tempos, o RIG deixou de ser apenas uma função de apoio e assumiu posição estratégica no alto escalão das organizações dos três setores da sociedade. Mais do que ter uma matriz para acompanhar agendas e monitorar proposições, a atividade requer preparar profissionais com capacidade de análise para entender as dinâmicas de poder, as regras e o funcionamento, para antecipar movimentos, aprimorar a comunicação e construir relações sólidas e legítimas com diferentes atores institucionais.
*Jornalista, Analista Político e Diretor de Documentação do DIAP. Sócio-Diretor da Contatos Assessoria Política.
