A República dos Bancos: lucro recorde, País travado e o pedágio eterno do crédito
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Enquanto a economia perde fôlego, o sistema financeiro transforma juros altos, concentração e demissões em máquina de bilhões. E cobra da sociedade a conta da própria estagnação.
Marcos Verlaine*
O Brasil desacelera. E os bancos comemoram. Há algo de estruturalmente indecente — e politicamente revelador — no fato de o sistema bancário brasileiro ter fechado 2025 com R$ 87 bilhões em lucros, justamente quando a economia real dava sinais claros de cansaço.
O País cresce menos, o crédito encarece, o consumo retrai, a indústria patina. Mas os bancos seguem imunes, como se habitassem bolha institucional blindada contra qualquer maré baixa.
O contraste é didático: depois de PIB de 3,4% em 2024, a projeção para 2025 recuou para cerca de 2,26%, pressionada por juros no maior patamar em quase 2 décadas. Ainda assim, o setor financeiro não apenas resistiu: prosperou.
A pergunta, portanto, não é “por que os bancos lucram?”. A pergunta é mais incômoda: que tipo de capitalismo (predatório) é esse em que o topo ganha mais quando o País trava?
JUROS ALTOS: ENGRENAGEM DA TRANSFERÊNCIA DE RENDA
O primeiro motor dessa festa é conhecido e brutal: juros elevados são mecanismo permanente de transferência de renda. De quem tem menos para quem tem mais.
Quando a Selic sobe, famílias e empresas pagam mais caro para financiar consumo e investimento. O crédito encolhe. A economia desacelera.
Mas, para os bancos, juros altos significam margens maiores, ganhos financeiros robustos e spreads1 que seguem indecentes.
O spread bancário brasileiro — a diferença entre o custo de captação e o juro cobrado do tomador — não é detalhe técnico: é modelo de extração.
Aqui, os juros altos não são apenas política monetária. São estruturas de poder.
OLIGOPÓLIO: 5 BANCOS MANDAM NO PAÍS
O segundo fator é ainda mais profundo: o sistema bancário brasileiro não é competitivo. É abusivamente concentrado.
O País passou de cerca de 100 grandes instituições para clube fechado de 5 gigantes: Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa.
Isso não é mercado. É quase cartel2 institucionalizado.
Com poucas alternativas reais, consumidores e empresas pagam tarifas elevadas, abusivas, enfrentam spreads persistentes e se submetem a crédito caro por definição.
A economia pode desacelerar. Mas o oligopólio3 não desacelera: cobra.
EFICIÊNCIA PARA QUEM? LUCRO RECORDE, EMPREGO CORTADO
O terceiro pilar é o cinismo travestido de modernização: “eficiência operacional”.
Em 2025, enquanto o mercado nacional abriu 1,28 milhão de vagas, o setor bancário eliminou 8.910 postos de trabalho4.
O Bradesco é exemplar: lucro de R$ 24,6 bilhões, acompanhado de mais de 2 mil demissões.
Os bancos descobriram fórmula perversa: lucrar mais, empregar menos, atender pior e digitalizar como justificativa.
A “eficiência” virou sinônimo de enxugamento social. E de bônus corporativo.
FORTALEZA DIGITAL: BANCOS COMO PLATAFORMAS, NÃO COMO FINANCIADORES
O Itaú simboliza a nova era: “fortaleza digital” que registrou R$ 46,8 bilhões, o maior lucro da história bancária brasileira, com ROE5 (Retorno sobre o Patrimônio Líquido) de 23,4%.
A digitalização não é neutra. Permite reduzir agências, automatizar serviços, cortar pessoal e ampliar rentabilidade. Detalhe: sem necessariamente ampliar crédito produtivo.
O banco deixa de ser instrumento de desenvolvimento e vira plataforma de rentismo sofisticado.
Mesmo com desaceleração, os gigantes projetam crescimento seletivo de carteira6 entre 8,5% e 9%, focando em segmentos de menor risco e maior retorno.
Crédito, aqui, não é política econômica: é produto premium.
PAÍS REAL PAGA A CONTA DA FESTA
O que os números mostram é simples: o sistema financeiro brasileiro não lucra apesar da desaceleração; lucra com a desaceleração.
Enquanto famílias se endividam, empresas adiam investimentos e o Estado paga caro para rolar dívida, os bancos capturam renda como intermediários inevitáveis.
Quando o dinheiro vira mercadoria rara, quem controla o dinheiro controla tudo. E todos.
O Brasil vive contradição crônica: setor financeiro globalmente rentável operando sobre economia nacional cronicamente desigual e cara para produzir.
CHEGA DE PEDÁGIO: QUE FAZER
A boa notícia é que isso não é destino. É escolha institucional. E pode ser enfrentado com política pública. As eleições 2026 estão aí para isto.
1. Regulação efetiva do spread bancário - Não é aceitável que o Brasil normalize spreads de país em colapso com bancos em festa. Transparência, metas e mecanismos regulatórios precisam entrar no debate.
2. Estímulo real à concorrência - Fintechs7 ajudam, mas não resolvem o oligopólio. É preciso atacar barreiras estruturais, ampliar portabilidade, reduzir custos de entrada e impedir práticas predatórias.
3. Bancos públicos como contrapeso, não como coadjuvantes - Banco do Brasil e Caixa devem atuar como instrumentos anticíclicos, puxando crédito produtivo e pressionando o mercado privado a reduzir margens.
4. Reforma do crédito: financiar produção, não apenas consumo caro - O Brasil precisa de redesenho do sistema de crédito orientado à indústria, inovação, infraestrutura e pequenas empresas. Não à financeirização do cotidiano.
5. Proteção ao emprego e ao atendimento - Digitalização não pode ser desculpa para desertos bancários e demissões em massa. O sistema financeiro opera concessões públicas implícitas e deve ter responsabilidade social.
A ECONOMIA NÃO PODE SER REFÉM DOS BANCOS
O Brasil precisa decidir se aceita continuar sendo País em que bancos lucram como nunca, enquanto o crescimento perde fôlego, o crédito sufoca e o trabalho encolhe.
No capitalismo, o lucro é legítimo. O que não é legítimo é um sistema que transforma estagnação em bônus e desigualdade em modelo de negócios.
Se o País quer desenvolvimento, não pode conviver com setor financeiro que funciona como pedágio permanente sobre o futuro.
Porque, do jeito que está, não é a economia que sustenta os bancos.
São os bancos que travam a economia.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 Spread, no contexto financeiro, é a diferença entre 2 preços, taxas ou rendimentos, funcionando como indicador de custo, risco ou lucro. Comumente, representa o diferencial entre o preço de compra (ask) e venda (bid) de ativo (liquidez) ou, nos bancos, a diferença entre o juro cobrado no empréstimo e o pago na captação.
2 Cartel é acordo entre empresas concorrentes para fixar preços, dividir mercados ou limitar a produção, visando eliminar a concorrência e aumentar lucros em detrimento do consumidor. No contexto econômico, é prática anticompetitiva ilegal.
3 Oligopólio é estrutura de mercado caracterizada pela dominação de um setor por número reduzido de empresas, que controlam a oferta, os preços e as condições de produtos (homogêneos ou diferenciados). Caracteriza-se por altas barreiras à entrada de concorrentes e pela interdependência estratégica entre as firmas, em que a ação de uma afeta diretamente as outras.
4 Setor bancário fecha 8,9 mil postos em 2025 e contraria trajetória positiva do mercado de trabalho - https://contrafcut.com.br/noticias/setor-bancario-fecha-8-9-mil-postos-em-2025-e-contraria-trajetoria-positiva-do-mercado-de-trabalho/ - Acesso em 8.02.26
5 ROE (Return on Equity), ou Retorno sobre o Patrimônio Líquido, é indicador fundamental de rentabilidade que mede a capacidade de empresa gerar lucros com o dinheiro dos acionistas (patrimônio líquido).
6 Crescimento seletivo de carteira (particularmente no setor bancário e de crédito) é estratégia focada em expandir o volume de empréstimos, financiamentos ou investimentos com critérios rigorosos de risco e qualidade, priorizando segmentos com maior rentabilidade e menor inadimplência.
7 Fintechs são empresas de base tecnológica que inovam no setor financeiro, oferecendo serviços digitais ágeis, desburocratizados e geralmente com taxas menores que bancos tradicionais, como contas, pagamentos e crédito. Operando 100% on-line, desburocratizam o mercado, com destaque no Brasil para Nubank, PicPay, Stone, e Mercado Pago.
