Bolsonaro fecha o cerco ao Senado e “rifa” aliados
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Marcos Verlaine*
Ex-presidente troca alianças históricas por controle ideológico e redefine o tabuleiro da direita para 2026.
Ao apostar em chapas “puro-sangue” no DF, SC e RS — e expandir o modelo para o Nordeste — ex-presidente troca alianças históricas por controle ideológico e redefine o tabuleiro da direita para 2026.
Marcos Verlaine*
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) decidiu abandonar a política de acomodação de aliados tradicionais para apostar numa estratégia de chapas “puro-sangue” ao Senado em 2026.
No Distrito Federal, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, o recado foi direto: prioridade absoluta a nomes de estrita confiança, mesmo que isso implique “rifar” parceiros e aliados históricos e de primeira hora1.
Trata-se da lógica da “pureza ideológica”. Isto terá consequências eleitorais imprevisíveis. E o “jogo bruto” das eleições só está começando.
No DF, a chapa será formada por Michelle Bolsonaro (PL) e a deputada federal Bia Kicis (PL), deixando de fora o governador Ibaneis Rocha (MDB), que contava com o apoio bolsonarista para disputar o Senado.
Em Santa Catarina, a dobradinha será entre Carlos Bolsonaro (PL), que transferiu o domicílio eleitoral para o Estado, e Carol De Toni (PL), excluindo o senador Esperidião Amin (PP), aliado histórico e nome preferido do governador Jorginho Mello (PL). Ambos foram atropelados por Bolsonaro.
No Rio Grande do Sul, a chapa reunirá os deputados federais Sanderson (PL) e Marcel van Hattem (Novo), deixando à margem o senador Luis Carlos Heinze (PP), outro bolsonarista de primeira hora.
A mensagem é inequívoca: não se trata apenas de vencer eleições, mas de moldar o Senado segundo orientação ideológica coesa e combativa, na linha do chamado “bolsonarismo raiz”.
NORDESTE NA MIRA
A estratégia não se limita ao Sul e ao Centro-Oeste. Interlocutores do PL confirmam que o modelo “puro-sangue” deve ser replicado em Estados do Nordeste, região historicamente dominada pelo PT e por forças aliadas ao presidente Lula, que é imbatível da região.
A orientação é lançar candidatos identificados como “bolsonaristas raiz”, mesmo que isso implique romper com alianças regionais tradicionais ou com partidos do chamado Centrão. A avaliação no entorno do ex-presidente é que 2026 exigirá confronto direto de projetos, e não com posições moderadas.
Estados como Bahia, Ceará e Pernambuco são vistos como territórios estratégicos para ampliar a presença conservadora no Senado. A meta não é apenas competitividade eleitoral, mas afirmação ideológica em redutos considerados adversos.
SENADO COMO CAMPO DE BATALHA
O objetivo estratégico é declarado por interlocutores do próprio ex-presidente: eleger maioria conservadora na Casa para controlar a presidência e viabilizar processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal.
Não se trata de meta lateral. É o centro do projeto. Desde os embates institucionais ocorridos durante e após mandato, Bolsonaro passou a enxergar o Senado como o verdadeiro eixo de poder capaz de conter decisões da Suprema Corte.
Ao priorizar nomes “raiz”, o PL busca construir bancada disciplinada, ideologicamente alinhada e disposta a tensionar o STF sem hesitação.
RUPTURA COM VELHAS ALIANÇAS
O custo político, porém, é alto. Ibaneis Rocha (DF), Esperidião Amin (SC) e Luis Carlos Heinze (RS) não são adversários eventuais; são aliados que sustentaram o bolsonarismo em momentos críticos. Ao preteri-los, Bolsonaro substitui a “lógica da coalizão” pela “lógica da lealdade pessoal” e do “alinhamento ideológico rígido”.
Esse movimento altera a natureza do campo conservador. Se antes a direita orbitava em torno de liderança capaz de agregar partidos e perfis diversos, agora se estrutura em torno de núcleo duro mais fechado, com menos margem para negociações pragmáticas.
No Nordeste, essa escolha pode ter efeitos ainda mais complexos, onde alianças locais costumam ser decisivas para a competitividade eleitoral.
ENTRE ESTRATÉGIA E ISOLAMENTO
Do ponto de vista tático, a decisão faz sentido: 2 vagas ao Senado estarão em disputa em cada Estado em 2026, e a possibilidade de eleger maioria conservadora real é concreta.
O Senado, diferentemente da Câmara, exige articulação mais enxuta — e, portanto —, mais suscetível a projetos de maioria orgânica.
Mas a política brasileira raramente recompensa movimentos de fechamento excessivo. Ao optar por chapas “puro-sangue”, Bolsonaro reforça a base mais fiel, mas arrisca estreitar o raio de alianças, especialmente em regiões onde o bolsonarismo ainda busca consolidar espaço.
O cálculo é claro: vale mais bancada ideologicamente coesa do que coalizão ampla e heterogênea. Resta saber se essa aposta produzirá maioria estável ou se aprofundará fissuras no próprio campo conservador e direitista.
2026 COMO PLEBISCITO INSTITUCIONAL
A eleição para o Senado tende a se tornar, nesse contexto, plebiscito indireto sobre o papel do STF e sobre o modelo de equilíbrio entre os Poderes. Ao transformar a disputa em trincheira institucional, Bolsonaro eleva o tom e redefine o eixo da campanha.
Não se trata apenas de nomes. Trata-se de projeto. O Nordeste, assim como o Sul e o Centro-Oeste, passam a integrar estratégia nacional de confrontação política aberta.
O Senado de 2026 pode decidir muito mais do que cadeiras. Pode redefinir a arquitetura de poder no Brasil. E, assim, testar os limites entre coesão político-ideológica e viabilidade eleitoral.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 Sanderson confirma pré-candidatos ao Senado de SC, RS e DF e aposta em Zema como vice de Flávio Bolsonaro - https://jovempan.com.br/noticias/politica/sanderson-confirma-pre-candidatos-ao-senado-de-sc-rs-e-df-e-aposta-em-zema-como-vice-de-flavio-bolsonaro.html - Acesso em 23.02.26
