A Europa e o duplo olhar
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Nos Estados-membros, difunde-se uma linguagem que associa migração à insegurança, alimentando suspeita e hostilidade
A Europa gosta de se apresentar como berço dos direitos e da civilização política. E, em parte, foi. Mas, ao lado dessa imagem reconfortante, existe outra tendência, menos confessada: não ver aquilo que lhe é incômodo.
Não se trata apenas de hipocrisia, mas de uma verdadeira seleção do olhar. Governos, imprensa e opinião pública denunciam prontamente as violações do direito internacional quando envolvem adversários, como no caso da Rússia. Tornam-se, porém, indulgentes quando entram em jogo suas próprias políticas, seus aliados ou interesses econômicos.
Emblemática é a relação com os Estados Unidos: guerras preventivas e operações sem mandato da ONU colocam em xeque princípios fundamentais, mas a resposta europeia permanece fraca, quando não silenciosa. Como se o direito valesse apenas para alguns.
Semelhante é a postura em relação a Israel. As práticas de apartheid, o massacre dos palestinos e as agressões militares no Oriente Médio são tratados com cautela diplomática: invoca-se a “complexidade”, diluem-se as responsabilidades. Aquilo que em outros contextos seria condenado, aqui é relativizado.
Essa mesma cegueira aparece no papel europeu nos conflitos contemporâneos. Guerras de baixa intensidade são frequentemente alimentadas também pelas exportações de armas europeias: enquanto se proclamam valores de paz, contribui-se para prolongar crises e instabilidades. Uma contradição estrutural, raramente enfrentada.
Essa remoção se torna ainda mais evidente nas políticas migratórias da União Europeia, onde a distância entre princípios e práticas é clara, mas sistematicamente negada.
No Mediterrâneo, impõe-se uma lógica de contenção: acordos com países terceiros, externalização das fronteiras, delegação a contextos sem garantias. Rejeições, detenções arbitrárias e condições desumanas são realidades conhecidas, mas tornadas politicamente invisíveis.
Também as tragédias — naufrágios, mortes, violências — são absorvidas por uma narrativa emergencial que evita questionar o sistema. Lamentam-se as vítimas, prometem-se intervenções, mas preservam-se as causas.
Nos Estados-membros, difunde-se ainda uma linguagem que associa migração à insegurança, alimentando suspeita e hostilidade. Políticas restritivas parecem inevitáveis, enquanto alternativas concretas permanecem marginais. Assim, apaga-se o impacto humano das escolhas políticas.
Dentro de suas próprias fronteiras, a Europa também tem dificuldade em reconhecer o crescimento da intolerância religiosa e cultural. Em nome da segurança, normalizam-se discriminações e constroem-se narrativas que transformam minorias em ameaças.
Essa seletividade do olhar esvazia a credibilidade do apelo a valores universais e alimenta um duplo padrão. Se o direito se torna negociável, deixa de ser princípio e se reduz a instrumento.
Reconhecer essa cegueira não significa negar o que a Europa construiu, mas levá-lo a sério. O verdadeiro desafio é encarar o presente, mesmo quando é incômodo.
A Europa terá coragem de se olhar sem filtros ou continuará repetindo para si mesma: «O que não quero ver não existe» — enquanto, justamente por isso, contribui para a barbárie?
Luciano Fazio – Matemático pela Università degli Studi de Milão e pós-graduado em Previdência Social e Gestão de Fundos de Pensão pela FGV. Trabalha com consultoria e formação nas áreas de economia e previdência e é consultor externo do Dieese para assuntos previdenciários. Autor dos livros “O que é Previdência Social”, Loyola, 2016, e “O que é Previdência do Servidor Público”, Loyola 2020.
