2026: entre legados, discursos e projetos de País
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Disputa eleitoral tende a opor balanços de governo, trajetórias políticas e visões econômicas e de mundo concorrentes.
Marcos Verlaine*
Serão legados em confronto de um lado e a aridez vazia de outro. Assim, a eleição presidencial de 2026 deve se estruturar, em grande medida, como plebiscito comparativo entre períodos recentes da política brasileira.
De um lado, o campo associado ao presidente Lula (PT) tende a enfatizar resultados ligados à retomada de políticas sociais, recomposição de investimentos públicos e articulação internacional.
De outro, apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso e condenado a 27 anos e 3 meses de prisão em regime fechado — por ter liderado tentativa de golpe de Estado —, costumam destacar pautas de costumes, agenda de desregulamentação1 e determinadas entregas de infraestrutura.
A avaliação desses ciclos, no entanto, permanece objeto de disputa discursiva. Enquanto críticos da atual gestão apontam pressões fiscais2 e desafios inflacionários, opositores do governo anterior frequentemente sublinham a condução da pandemia e ainda o isolamento diplomático3.
Assim, mais do que simples balanço técnico, o embate tende a ser moldado por interpretações concorrentes sobre prioridades e resultados.
TRAJETÓRIAS SOB ESCRUTÍNIO
A eventual presença do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), preposto do pai, no centro da disputa, adiciona outra camada ao debate: a comparação entre experiências políticas.
A trajetória do senador, que inclui passagem pela Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) e atuação no Senado, são frequentemente mobilizadas tanto por críticos — que mencionam investigações e questionamentos sobre a atuação passada — quanto por apoiadores, que alegam perseguição política e destacam a inserção no Congresso Nacional.
Nesse contexto, a eleição tende a extrapolar a análise de governos e incorporar julgamentos sobre biografias políticas, experiência administrativa e credenciais para o Executivo federal.
PROJETOS ECONÔMICOS EM DISPUTA
Outro eixo central será o contraste entre estratégias econômicas. A atual orientação governamental costuma ser associada à abordagem de estímulo ao crescimento por meio de investimento público, políticas industriais e programas sociais.
Frequentemente descrita como neodesenvolvimentista.
Em oposição, setores ligados à agenda neoliberal defendem maior protagonismo do mercado, com ênfase em privatizações, austeridade fiscal4 e redução do tamanho do Estado.
Trata-se, pois, de agenda velha e carcomida, que remonta à década de 1990 do século passado, que nada de relevante acrescentou ao Brasil. Ao contrário.
Esse contraste não é novo no Brasil, mas tende a ganhar nova intensidade e contornos diante das pressões por crescimento, estabilidade econômica e inclusão social.
NARRATIVAS E CONSTRUÇÃO ELEITORAL
Apesar das linhas gerais já visíveis, o cenário de 2026 ainda está em formação. Mas em grande medida já se desenrola nas redes e nas plataformas, por todos os contendores.
Candidaturas, alianças e estratégias discursivas devem evoluir conforme o ambiente político e econômico se redefine.
Nesse processo, a disputa não se dará apenas em torno de dados objetivos, mas também da capacidade de cada campo em construir discursos convincentes sobre passado, presente e futuro.
A eleição, portanto, tende a combinar 3 dimensões principais: o julgamento de legados recentes, a avaliação de trajetórias individuais e o confronto entre modelos de desenvolvimento, sem contar que rumos ou futuro que apontam os principais contendores.
O resultado dependerá de como esses elementos serão percebidos pela população e eleitores e articulados ao longo da campanha, que já se desenrola nas redes digitais.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 A desregulamentação é a remoção ou simplificação de regras e controles governamentais sobre atividades econômicas e setores produtivos, visando aumentar a chamada liberdade de mercado, concorrência e reduzir a burocracia. Geralmente associada ao neoliberalismo, que busca facilitar a operação de empresas, embora possa gerar precarização trabalhista e riscos sistêmicos.
2 As chamadas pressões fiscais no Brasil em 2026 intensificaram-se devido a déficit de R$ 30 bilhões no primeiro bimestre, impulsionadas por gastos com pessoal (+R$ 2,2 bilhões) e benefícios previdenciários (+R$ 1,7 bilhão). O cenário é marcado pela revisão de metas fiscais, aumento da incerteza econômica e risco de alta nos juros, dificultando o corte da Selic.
3 O isolamento diplomático é penalidade ou situação em que determinado país é excluído, ignorado ou sofre restrições de relações políticas e comerciais por parte da comunidade internacional. Isso, geralmente devido à violações de normas globais ou ações políticas disruptivas. Pode resultar em perda de influência, sanções econômicas e redução de parcerias estratégicas.
4 A austeridade fiscal é política econômica que busca equilibrar as contas públicas por meio da redução de gastos governamentais e, por vezes, aumento de impostos. Focada na sustentabilidade da dívida, implica cortes em investimentos, congelamento de salários e redução de subsídios, que impacta serviços sociais como saúde e educação.
