As vítimas da covid e a memória sem justiça
- Detalhes
- Categoria: Artigos
Brasil cria dia em homenagem às vítimas da pandemia, mas segue sem enfrentar plenamente as responsabilidades políticas pela tragédia sanitária que matou, oficialmente, mais de 700 mil pessoas.
Marcos Verlaine*
Trata-se de a lembrança sem a responsabilização. É disso que, em grande medida, se trata a sanção, segunda-feira (11), do PL 2.120/22, do deputado Pedro Uczai (PT-SC), convertido na Lei 15.406/26, que institui o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19.
Importante esclarecer que não há nesta crítica nenhum desmerecimento à iniciativa do deputado e muito menos na aquiescência da lei por parte do governo.
Embora o gesto e iniciativa representem a importância do reconhecimento histórico diante de uma das maiores tragédias da história brasileira. Isto só não é suficiente.
O País que assistiu a mais de 700 mil mortes oficialmente registradas tenta agora transformar o luto coletivo em memória pública, sem punir os principais responsáveis pela tragédia sanitária e humanitária.
A homenagem à primeira vítima fatal da doença no Brasil, Rosana Aparecida Urbano, carrega forte dimensão humana e simbólica. A projeção no Congresso Nacional com velas, nomes e frases como “Lembrar é um ato de cuidado” também procura reconstruir a dimensão de solidariedade que faltou dramaticamente em parte decisiva da pandemia.
Mas há contradição incontornável nesse processo de memorialização: o Estado brasileiro tenta lembrar os mortos enquanto evita enfrentar plenamente as responsabilidades políticas pelas mortes.
A memória oficial corre o risco de se transformar em memória desmemoriada. É a desmemorialização ou amnésia seletiva.
Tragédia não foi apenas sanitária
A pandemia foi calamidade global, mas no Brasil adquiriu contornos particulares pela atuação do governo de Jair Bolsonaro (PL), que foi surreal, do tanto que foi irresponsável.
Ao longo da crise sanitária, o então presidente sabotou medidas de isolamento social, atacou governadores, desacreditou vacinas, promoveu medicamentos sem eficácia científica comprovada, estimulou aglomerações, ironizou vítimas da doença e transformou a própria pandemia em instrumento de guerra política permanente.
O negacionismo não foi episódico. Foi política de governo.
Diversos estudos nacionais e internacionais apontaram que parcela significativa das mortes no Brasil poderia ter sido evitada com coordenação federal adequada, vacinação mais rápida, campanhas públicas de prevenção e adoção consistente de medidas sanitárias.
O próprio relatório final da CPI da Covid, conduzida pelo Senado Federal em 2021, concluiu que o governo federal adotou deliberadamente estratégia de disseminação do vírus baseada na tese da “imunidade de rebanho” por contaminação natural.
A comissão atribuiu responsabilidades políticas e criminais ao então presidente e a integrantes centrais do governo.
CPI que o País parece querer esquecer
A Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid talvez tenha produzido um dos documentos mais graves da história republicana recente. O relatório aprovado apontou indícios de crimes como charlatanismo, prevaricação, infração de medida sanitária preventiva e crimes contra a humanidade.
As investigações revelaram pressão política contra medidas sanitárias, desorganização deliberada do Ministério da Saúde, omissão na compra de vacinas e atuação de estruturas paralelas de aconselhamento negacionista dentro do governo.
O caso de Manaus tornou-se símbolo extremo desse colapso. Enquanto hospitais entravam em colapso por falta de oxigênio, o governo insistia em tratamentos ineficazes e demorava a agir diante da emergência sanitária e humanitária.
Mesmo assim, passados alguns anos, a sensação predominante é a de que o País institucionalizou espécie de esquecimento seletivo.
A responsabilização política se diluiu. Parte dos denunciados continua ocupando espaços de poder, influenciando o debate público e reorganizando forças para as próximas disputas eleitorais. O choque moral provocado pelas mais de 700 mil mortes foi lentamente absorvido pela dinâmica política cotidiana.
Banalização da barbárie
O problema não está na criação do Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid-19. Ao contrário: preservar a memória coletiva é essencial para qualquer democracia que pretenda aprender com suas tragédias.
O problema surge quando a memória é despolitizada.
Transformar a pandemia apenas em episódio triste da história nacional, sem enfrentar os mecanismos políticos que ampliaram a tragédia, equivale a reduzir a dimensão histórica do que ocorreu. Não houve apenas crise sanitária. Houve também crise institucional, ética e civilizatória.
Em vários momentos da pandemia, a ciência foi tratada como inimiga, o luto foi ridicularizado e a morte foi naturalizada em pronunciamentos oficiais. A banalização da tragédia tornou-se parte da própria estratégia política do bolsonarismo.
Por isso, lembrar as vítimas exige mais do que homenagens simbólicas. Exige preservar a verdade histórica sobre o período.
Dever democrático da memória
Democracias dependem da memória para impedir a repetição de suas tragédias.
A Alemanha mantém viva a lembrança do nazismo; a Argentina transformou a memória da ditadura em política de Estado; a África do Sul precisou enfrentar publicamente os crimes do apartheid. Nenhuma sociedade supera experiências traumáticas apenas com cerimônias protocolares.
No caso brasileiro, a pandemia ainda permanece como ferida parcialmente interditada.
O País homenageia os mortos, mas hesita diante do debate profundo sobre responsabilidades políticas, desinformação institucionalizada e sabotagem da saúde pública. Sem esse enfrentamento, o risco é transformar a memória em ritual vazio; liturgia oficial incapaz de produzir aprendizado histórico.
Lembrar as vítimas da covid exige também lembrar quem atacou vacinas, desacreditou a ciência, estimulou aglomerações e tentou transformar a morte em cálculo político.
Caso contrário, o Brasil corre o risco de construir monumentos para os mortos enquanto absolve politicamente os responsáveis pela tragédia. Tal como fez com a ditadura militar (1964-1985) e a escravidão (1530-1888).
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
