As mulheres que viraram ponte e derrotaram o império
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Na Guerra do Vietnã, milhares de mulheres anônimas transformaram os próprios corpos em caminhos para a libertação nacional. Essa história permanece como uma das mais poderosas lições de coragem, solidariedade e resistência popular do século 20.
Marcos Verlaine*
Trata-se, pois, de história escrita pelos invisíveis. Embora a história seja contada, normalmente, pelos que ocupam os palácios, comandam exércitos ou assinam tratados. Mas os grandes acontecimentos da humanidade quase sempre repousam sobre os ombros (às vezes, literalmente) de homens e mulheres anônimos.
Entre essas histórias pouco conhecidas está a das vietnamitas que, durante a guerra contra a intervenção militar dos Estados Unidos, transformaram seus próprios corpos em instrumentos de resistência.
A chamada “Ponte de Mulheres” não é apenas imagem poderosa. É síntese extraordinária da capacidade humana de resistir quando tudo parece perdido.
Entre os anos 1960 e o início da década de 1970, os bombardeios americanos destruíram estradas, passagens e pontes em larga escala numa tentativa de interromper as linhas de abastecimento vietnamitas. A estratégia era simples: cortar a logística para derrotar um povo que se recusava a aceitar a ocupação, a submissão e a divisão de seu território.
O que os estrategistas em Washington não previram foi a força de um povo disposto a transformar cada rio, cada estrada e cada aldeia em trincheira de resistência.
Corpos contra bombas
Entre os episódios mais impressionantes desse período estão os relatos e registros fotográficos de mulheres que entravam em rios, enfrentavam águas geladas e permaneciam imóveis por horas para sustentar plataformas improvisadas de madeira. Com os próprios corpos, ajudavam a criar passagens para que combatentes, alimentos, medicamentos e equipamentos cruzassem trechos onde as pontes haviam sido destruídas.
A cena parece saída de obra de ficção. Mas aconteceu.
Enquanto a maior potência militar do planeta despejava toneladas de explosivos sobre o Vietnã, mulheres camponesas, trabalhadoras e jovens voluntárias respondiam oferecendo aquilo que possuíam de mais precioso: o próprio corpo.
Não carregavam títulos militares importantes. Não ocupavam postos de comando. Não apareceram nas capas dos jornais ocidentais. Mas sem elas a resistência vietnamita dificilmente teria mantido a capacidade de mobilidade que se mostrou decisiva para a vitória.
A guerra invisível das mulheres
A participação feminina na resistência vietnamita foi muito além das famosas pontes humanas.
Milhares de mulheres reconstruíram estradas sob bombardeio, repararam passarelas destruídas, transportaram suprimentos, medicamentos e armamentos, organizaram redes de comunicação e sustentaram a produção agrícola em regiões devastadas pela guerra.
Enquanto aviões destruíam durante o dia, elas reconstruíam durante a noite. Enquanto as bombas buscavam interromper o fluxo da vida, elas encontravam formas de fazê-lo continuar.
Foi uma guerra travada não apenas nas frentes de combate, mas também nos caminhos, nos arrozais, nas margens dos rios e nos locais onde a sobrevivência cotidiana se tornou ato político.
Sorriso que venceu o medo
A resistência das mulheres vietnamitas produziu símbolos que atravessaram gerações.
Um dos mais conhecidos foi o de Võ Th? Th?ng. Presa pelas forças do regime apoiado pelos Estados Unidos, ela foi fotografada sorrindo diante do tribunal que a condenava em 1968.
A imagem ficou conhecida mundialmente como “Smile of Victory”: o Sorriso da Vitória.
A fotografia não retratava apenas uma mulher. Retratava a certeza de um povo de que a força militar mais poderosa do mundo não seria capaz de derrotar nação mobilizada pela própria independência.
Anos depois, a história confirmou aquele sorriso.
Lição para o presente
A “Ponte de Mulheres” é também metáfora.
Representa todas as mulheres que sustentam sociedades inteiras sem reconhecimento proporcional ao esforço delas. Mulheres que trabalham, cuidam, organizam, produzem, educam, resistem e mantêm comunidades de pé enquanto raramente ocupam os lugares de destaque reservados pelos livros de história.
Por isso, recordar aquelas vietnamitas é mais do que revisitar episódios da Guerra do Vietnã1.
É reconhecer que as transformações históricas raramente são obra de heróis isolados. Essas nascem da ação coletiva de pessoas comuns que, diante da injustiça, decidem não recuar.
Quando um povo vira ponte
Os Estados Unidos possuíam aviões mais modernos, armamentos mais sofisticados e recursos praticamente inesgotáveis.
O Vietnã possuía algo diferente: um povo disposto a lutar.
Entre esse povo estavam milhares de mulheres que transformaram rios em caminhos, ruínas em passagens e medo em coragem.
A “Ponte de Mulheres” permanece como um dos monumentos morais mais impressionantes do século 20. Não foi construída em aço nem tampouco em concreto. Foi erguida com solidariedade, sacrifício e convicção, e, sobretudo, literalmente sobre os ombros.
E talvez por isso tenha resistido ao tempo muito melhor do que as pontes que as bombas tentaram destruir. Porque há obras que ligam as margens. E há mulheres que ajudam a construir a própria história.
Essas histórias devem ser sempre contadas, recontadas, lembradas e relembradas para que nunca sejam esquecidas, pois recordar e não esquecer é resistir.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 A Guerra do Vietnã foi conflito armado que ocorreu entre 1955 e 1975 no sudeste asiático, tornando-se um dos maiores símbolos da Guerra Fria. O combate contrapôs o Vietnã do Norte (regime socialista aliado à então União Soviética e à China) e o Vietnã do Sul (capitalista apoiado diretamente pelos Estados Unidos). A guerra terminou com a retirada das tropas americanas e a unificação do país sob o regime socialista. Talvez a historiografia mais completa sobre essa guerra e fases anteriores do país esteja escrita no livro de Max Hastings, jornalista, editor, historiador e autor britânico, “Vietnã: uma tragédia épica 1945-1975, que conta a história da guerra de libertação do colonialismo francês, o conflito com o Japão, no contexto da 2ª Guerra, e, finalmente, o confronto com os Estados Unidos. Entenda cada fase, que no total durou 30 anos, cuja saga é marcada por contínuas guerras de resistência contra potências estrangeiras. Esse processo culminou na independência e reunificação do país, consolidando a identidade nacional vietnamita contra diferentes formas de dominação:
1. Resistência contra o colonialismo francês - país esteve sob o jugo do colonialismo francês desde o século 19, como parte da chamada Indochina Francesa, porque está situado entre a China e a Índia. Após a Segunda Guerra Mundial, os franceses tentaram retomar o controle total da região, o que desencadeou a Primeira Guerra da Indochina (1946-1954). O movimento nacionalista e comunista liderado por Ho Chi Minh, o Viet Minh, organizou poderosa guerrilha. O conflito terminou em 1954 com a histórica vitória vietnamita na Batalha de Dien Bien Phu, que forçou a retirada francesa e dividiu o país temporariamente em Norte (socialista) e Sul (apoiado pelo ocidente).
2. Ocupação japonesa (Segunda Guerra Mundial) - durante esse conflito, o Japão invadiu e ocupou a Indochina Francesa. A princípio, os japoneses permitiram que a administração colonial francesa continuasse em funcionamento de forma submissa. No entanto, em março de 1945, prevendo a derrota na guerra, os japoneses eliminaram a presença francesa e assumiram o controle direto. Foi nesse vácuo de poder, logo após a rendição japonesa em agosto de 1945, que Ho Chi Minh declarou a independência da República Democrática do Vietnã.
3. Guerra contra os Estados Unidos - a fase mais conhecida internacionalmente é a Guerra do Vietnã (1955-1975). No contexto da Guerra Fria, os Estados Unidos intervieram diretamente para impedir a expansão do socialismo no Sudeste Asiático, apoiando o Vietnã do Sul contra o Vietnã do Norte e os guerrilheiros Vietcongues. O conflito militar foi brutal e desigual, com uso extensivo de bombardeios e armas químicas como o agente laranja. Incapazes de derrotar a tática de guerrilha e enfrentando forte oposição interna, as tropas americanas retiraram-se em 1973. A guerra terminou em 30 de abril de 1975, com a queda de Saigon, capital do então Vietnã do Sul.
