Entre gráficos otimistas e carrinhos vazios, a percepção dos brasileiros revela o verdadeiro campo de batalha político de 2026.

 Marcos Verlaine*

 Trata-se da tirania da experiência cotidiana, que é incontornável. É o que revela nova pesquisa ABC Dados em parceria com a Amangolin1, que é muito interessante e preocupante.

Economistas, governos e agentes do mercado costumam travar longos debates sobre crescimento do PIB, inflação acumulada, taxa de desemprego e resultado fiscal. São indicadores indispensáveis para compreender o estado da economia.

Mas a pesquisa ABC Dados em parceria com a Amangolin lembra verdade frequentemente ignorada pelos formuladores de políticas públicas: a economia que determina o humor social não é a dos relatórios técnicos; é a que entra pela porta de casa todos os dias.

Quando 82% dos brasileiros afirmam que alimentos, produtos de higiene e itens de limpeza ficaram mais caros no último ano, pouco importa se a inflação oficial desacelerou alguns décimos.

O que pesa, efetivamente, é a sensação concreta produzida pela ida ao supermercado. O cidadão não mede a economia por índices e gráficos. Mede pela quantidade de produtos que consegue colocar no carrinho e levar para casa.

A pesquisa mostra que metade dos entrevistados identifica alimentos e bebidas como os itens que mais encareceram. Não se trata de detalhe estatístico. Trata-se do coração do orçamento popular. O preço da comida possui enorme poder simbólico porque é percebido diariamente e afeta todas as famílias, independentemente da classe social.

Brasil endividado

Outro dado que chama atenção é o avanço do endividamento. Nada menos que 58% dos entrevistados afirmam possuir muitas ou algumas dívidas. Mais grave ainda: 42% relatam ter enfrentado negativação do nome nos últimos 12 meses.

O fenômeno revela a contradição estrutural da economia brasileira. O País pode apresentar crescimento, geração de empregos e expansão da renda formal, mas milhões de famílias continuam presas à dinâmica de sobrevivência financeira marcada pelo crédito caro e pela insuficiência da renda disponível.

O fato de quase metade dos endividados afirmar que a situação piorou ao longo do último ano demonstra que parte relevante da população não percebe melhora concreta na condição material. Ao contrário: sente-se mais pressionada.

Nesse contexto, a dívida deixa de ser apenas problema econômico e passa a ser problema político. Famílias endividadas tendem a desenvolver percepção mais pessimista sobre o presente e mais exigente em relação aos governos.

O dinheiro que encolhe

Talvez o dado mais revelador da pesquisa seja o que mede a sensação de perda do poder de compra.

Segundo a pesquisa, 65% dos entrevistados afirmam conseguir comprar menos com a mesma quantidade de dinheiro. Além disso, 48% dizem que o dinheiro falta às vezes ou frequentemente antes do fim do mês.

Essa percepção ajuda a explicar porque indicadores macroeconômicos positivos nem sempre se convertem automaticamente em aprovação governamental. A população não avalia a economia a partir de conceitos abstratos. Avalia a partir da própria experiência de consumo.

Quando o salário termina antes do mês acabar, a narrativa oficial perde força diante da realidade cotidiana.

É justamente nesse ponto que muitos governos, no Brasil e no mundo, costumam enfrentar dificuldades. Melhorias macroeconômicas levam tempo para serem percebidas pela população, enquanto aumentos de preços e perdas de renda são sentidos imediatamente.

Peso dos juros

A pesquisa também evidencia a rejeição social ao elevado custo do crédito.

Para 95% dos entrevistados, os juros cobrados ao consumidor são altos ou muito altos. Mais significativo ainda é o fato de 87% afirmarem já ter desistido de comprar ou investir por causa desses.

O resultado reforça característica histórica da economia brasileira: a dificuldade de transformar crédito em instrumento de expansão do consumo e do investimento produtivo.

Juros elevados funcionam como imposto invisível sobre famílias e empresas. Reduzem a capacidade de consumo, inibem investimentos e alimentam o ciclo do endividamento. Para a população, entretanto, a questão é muito mais simples: parcelas mais caras significam menos possibilidades.

A economia e suas lentes ideológicas

A pesquisa traz ainda elemento que transcende os aspectos econômicos e alcança o terreno da psicologia política.

Os dados mostram que a percepção sobre a economia varia fortemente de acordo com a identidade política do entrevistado. Entre eleitores de Jair Bolsonaro (PL), 77% classificam a economia como péssima. Entre eleitores de Lula (PT), apenas 5% fazem a mesma avaliação. É a posição ou orientação político-eleitoral influenciando na percepção sobre a economia.

A divergência aparece também na percepção sobre os preços. Enquanto 95% dos bolsonaristas afirmam que os produtos subiram muito, apenas 12% dos lulistas compartilham dessa avaliação.

Os números sugerem que a economia deixou de ser interpretada apenas pela experiência material e passou a ser filtrada por identidades políticas cada vez mais consolidadas. Em outras palavras, brasileiros diferentes observam a mesma realidade econômica, mas frequentemente chegam a conclusões opostas.

Essa é uma das marcas mais profundas da chamada polarização contemporânea.

A pergunta que decidirá a eleição

O principal mérito da pesquisa talvez esteja em revelar que a disputa econômica de 2026 não será travada apenas nos números do PIB, da inflação ou do desemprego.

O verdadeiro debate ocorrerá no campo da percepção.

Governos costumam acreditar que bons indicadores produzem automaticamente reconhecimento popular. A experiência brasileira mostra que a relação é mais complexa. O eleitor não vota em planilhas. Vota em sensações, expectativas e experiências concretas.

Por isso, a questão decisiva dos próximos meses não será quanto cresceu a economia nem quantos empregos foram criados. A pergunta central será muito mais simples e politicamente muito mais poderosa:

O brasileiro sente que voltou a viver melhor?

Enquanto essa resposta permanecer incerta para parcela expressiva da população, continuará aberta a principal disputa política do País.

Embora, a bem da verdade e mais ainda das pesquisas de intenção de voto, o presidente Lula seja o favorito a continuar sendo o inquilino dos 2 principais imóveis da capital federal: o Palácio do Planalto, de onde dirige o País; e o Palácio da Alvorada, onde mora em Brasília.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

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1 Acesse o relatório completo: http://abcdados.com.br/indicadores-x-percepcao/

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