O bolsonarismo não é conservador. É reacionário
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Confundir conservadorismo com reacionarismo não é apenas erro conceitual. É equívoco político que ajuda a normalizar projeto de regressão social travestido de defesa da tradição.
Marcos Verlaine*
É preciso entender os conceitos. Há erro recorrente no debate público brasileiro: chamar o bolsonarismo de “conservador”. Não o é.
Para eles, a classificação é cômoda e até elegante. Mas intelectualmente insustentável. Conservadorismo1 e reacionarismo2 pertencem à mesma família ou categoria histórica da direita, porém ocupam cômodos distintos da casa.
Um busca preservar instituições e promover mudanças graduais; o outro deseja demolir conquistas sociais e devolver a sociedade passado idealizado que, em muitos casos, jamais existiu.
O bolsonarismo não quer conservar nada. Quer retroceder. Essa diferença não é detalhe acadêmico. É a chave para compreender a atuação política desse segmento ideológico, que cresceu no Brasil e ganhou força política que jamais teve no debate público.
O conservador clássico parte da ideia de que mudanças são inevitáveis, mas devem ocorrer com prudência, respeitando a estabilidade institucional. Valoriza a ordem constitucional, a previsibilidade das regras, o funcionamento das instituições e a continuidade do Estado.
O reacionário opera por outra lógica. Seu objetivo é desfazer avanços históricos, deslegitimar direitos consolidados e restaurar suposta “idade de ouro”, quase sempre construída pela memória seletiva e pela nostalgia política. Por isso, por exemplo, são saudosistas da ditadura militar (1964-1985).
Enquanto o conservador olha para o futuro com cautela, o “reacionário dirige o carro olhando apenas pelo retrovisor”. E frequentemente esquece que o retrovisor não mostra toda a estrada.
Nostalgia como programa político
O bolsonarismo construiu a identidade sob permanente idealização do passado. Observe como o bolsonarista raiz pensa e vê a ditadura militar.
Não por acaso, celebra a ditadura militar, relativiza a tortura, trata a Constituição de 1988 como obstáculo, combate políticas de inclusão social, demoniza universidades, desacredita a ciência quando essa contraria seus interesses e transforma direitos sociais em privilégios.
Nada disso é conservadorismo. É reacionarismo em estado puro.
Seu discurso não pretende aperfeiçoar a democracia; pretende desqualificá-la quando os resultados eleitorais não lhe agradam. Não busca fortalecer instituições; tenta submetê-las à vontade de um líder, que olha para estas com desdém e desprezo.
Não promove responsabilidade fiscal como instrumento de estabilidade econômica; utiliza o tema seletivamente enquanto naturaliza privilégios tributários para setores aliados e combate investimentos públicos orientados aos segmentos mais vulneráveis.
Guerra contra o próprio povo
Talvez a característica mais reveladora do reacionarismo bolsonarista seja sua relação com os trabalhadores.
Historicamente, conservadores europeus e americanos defenderam reformas econômicas, mas compreenderam que a estabilidade social depende de alguma proteção ao trabalho e de instituições capazes de mediar conflitos.
O bolsonarismo brasileiro frequentemente escolhe outro caminho: apresenta direitos trabalhistas como entraves ao crescimento, sindicatos como inimigos naturais e políticas sociais como desperdício.
Há nisso curiosa inversão de prioridades. Quando se trata de benefícios tributários para grandes grupos econômicos, fala-se em incentivo ao mercado.
Quando se trata de proteger salários, aposentadorias ou serviços públicos, o discurso passa a ser de austeridade. A matemática é criativa: o custo sempre está no bolso do trabalhador.
Curioso patriotismo de exportação
Existe outra singularidade curiosa no bolsonarismo. Os verdadeiros conservadores costumam valorizar a soberania nacional.
O bolsonarismo, entretanto, frequentemente terceiriza suas disputas políticas para atores estrangeiros, buscando legitimidade em governos, parlamentares ou movimentos internacionais sempre que enfrenta dificuldades internas.
Trata-se, pois, de nacionalismo curioso. A bandeira brasileira cobre os ombros. Mas a esperança política atravessa fronteiras. Patriotismo, nesse caso, parece funcionar em regime de franquia.
Tradição que nunca existiu
O reacionarismo alimenta-se de ficção histórica. Constrói passado supostamente harmonioso, moralmente puro e socialmente ordenado.
Esquece, porém, que esse mesmo passado convivia com desigualdades extremas, exclusão política, concentração de renda, censura, discriminação estrutural e ausência de direitos hoje considerados elementares, incontornáveis.
Não se trata de preservar tradições. Trata-se de selecionar apenas as lembranças convenientes. É como restaurar uma casa antiga derrubando todas as paredes que foram construídas para impedir que desabasse.
Política da negação
Outra marca do reacionarismo é sua dificuldade em dialogar com a realidade quando essa contraria convicções ideológicas. Dados científicos tornam-se opinião. Estatísticas passam a ser suspeitas. Universidades convertem-se em centros de conspiração.
Jornalismo vira inimigo. Tribunais deixam de ser legítimos. E eleições só são confiáveis quando produzem o resultado esperado. Não é coincidência.
Todo projeto reacionário precisa enfraquecer as instituições capazes de produzir conhecimento, limitar o poder político ou fiscalizar governos.
Sem esses freios, sobra apenas a narrativa. E narrativas, quando divorciadas dos fatos, tornam-se excelentes instrumentos de manipulação.
Conservadores não precisam
destruir a democracia
É importante fazer justiça ao próprio conceito de conservadorismo. Ao longo da história, inúmeros conservadores participaram da construção de democracias sólidas, defenderam o Estado de Direito, respeitaram as alternâncias de poder e reconheceram a legitimidade dos adversários políticos.
Discordaram dos progressistas, muitas vezes profundamente. Mas disputaram dentro das regras. Essa distinção é essencial. Rotular todo pensamento conservador como extremista apenas empobrece o debate público.
Da mesma forma, chamar o reacionarismo bolsonarista de simples conservadorismo confere-lhe respeitabilidade intelectual que não possuem e que seus próprios métodos frequentemente desmentem.
Passado não é destino
Toda sociedade precisa equilibrar tradição e mudança. Sem memória, perde identidade. Sem transformação, perde o futuro. O problema começa quando o passado deixa de ser referência e passa a ser prisão.
O Brasil enfrenta enormes desafios econômicos, sociais e institucionais. Nenhum desses, porém, será resolvido restaurando fantasmas ou espantalhos históricos ou convertendo ressentimento em programa de governo.
O País precisa de debates sérios sobre desenvolvimento, produtividade, educação, inovação, distribuição de renda e fortalecimento das instituições democráticas.
O reacionarismo oferece outra receita: substituir projetos por nostalgias, geralmente implausíveis, argumentos por slogans e políticas públicas por guerras culturais permanentes.
Isso é estratégia eficiente para produzir conflitos. Mas profundamente ineficiente para construir uma Nação. No fim das contas, a diferença entre o conservador e o reacionário pode ser resumida de forma simples.
O conservador procura preservar o que funciona. O reacionário tenta ressuscitar o que já foi superado. Observe o debate em torno da redução da jornada e o fim da escala 6x1.
E a História costuma ensinar, com alguma ironia, que quem insiste em caminhar para trás dificilmente consegue conduzir um país para a frente.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 Pensamento político que defende a manutenção das instituições sociais tradicionais, como a família, a comunidade local e a religião, além dos usos, costumes, tradições e convenções. Essa corrente enfatiza a continuidade e a estabilidade das instituições, opondo-se a qualquer tipo de movimentos revolucionários e de políticas progressistas.
2 Refere-se a indivíduos ou ideologias que se opõem a mudanças sociais, políticas ou econômicas. Diferente do conservador — que busca manter o estado atual das coisas —, o reacionário deseja retroceder o relógio, buscando reverter transformações recentes e restaurar costumes ou instituições de épocas passadas. O termo surgiu após a Revolução Francesa (1789-1799) para descrever quem desejava a volta do Antigo Regime (absolutismo monárquico). No debate político atual, o termo é associado a posições de extrema-direita, caracterizadas por: saudosismo idealizado, que é o desejo de retornar a períodos passados (como regimes militares ou estruturas sociais antigas). Rejeição ao progresso: oposição às pautas progressistas, como novas legislações de direitos civis, avanços científicos ou costumes modernos. Postura combativa: ação enérgica e contrária à evolução natural ou planejada da sociedade, buscando ativamente a invalidação de direitos já conquistados.
