Clemente Ganz Lúcio

Brasil registra, após mais de uma década, aumento no número de trabalhadores sindicalizados. Adesão responde às novas demandas por proteção social, empregos de qualidade, fim da escala 6×1 e desafios impostos pela IA. Como podem incorporar as novas lutas?

O crescimento da taxa de sindicalização observado pelo IBGE em 20242 marca um ponto de inflexão importante no mundo do trabalho brasileiro. Depois de mais de uma década de retração, interrompe-se uma trajetória de queda iniciada em 2012 e agravada pelos ataques às instituições sindicais, pela reforma trabalhista de 2017, pela eliminação do financiamento compulsório e por uma conjuntura política marcada pela deslegitimação da ação coletiva. Em 2024, a taxa de sindicalização passou de 8,4% para 8,9% da população ocupada (mais de 100 milhões de pessoas, formais e informais), elevando o contingente de trabalhadores sindicalizados de 8,3 milhões para aproximadamente 9,1 milhões de pessoas, um crescimento de cerca de 812 mil filiados. Trata-se da primeira alta da série histórica da PNAD Contínua iniciada em 2012. Mais do que um dado estatístico, trata-se de um sinal de mudança na dinâmica do mundo do trabalho brasileiro.

Destaques:

  • Setor Público Registrou a maior taxa de adesão, alcançando 18,9%.
  • Setor Privado com Carteira Assinada apresentou taxa de filiação de 11,2%.
  • Trabalhadores Informais e Sem Carteira mantiveram os menores índices, com apenas 3,8% de sindicalização.
  • Atividades com Maior Adesão: o grupamento de administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais liderou com 15,5%, seguido pela indústria geral com 11,4%.

Essa recuperação não resulta de um único fator. Ela expressa a convergência entre transformações econômicas, institucionais, políticas e organizativas que recolocam o trabalho e suas formas de representação em posição estratégica.

O primeiro elemento é a melhora consistente do mercado de trabalho. A retomada do crescimento econômico, a expansão do emprego formal, o aumento dos rendimentos reais e a redução do desemprego ampliaram o universo de trabalhadores protegidos por contratos formais e convenções coletivas. O fortalecimento da indústria, impulsionado pela política industrial, pelos investimentos públicos e privados e pela recuperação da capacidade produtiva nacional, favoreceu particularmente setores historicamente mais organizados, onde a presença sindical é mais intensa. Não por acaso, a indústria registrou uma das maiores elevações na taxa de sindicalização em 2024.

Também foi decisiva a retomada das contratações no setor público. A recomposição das capacidades do Estado para cumprir suas funções constitucionais significou não apenas mais servidores, mas também o fortalecimento de categorias cuja tradição organizativa sempre foi expressiva.

Outro aspecto relevante foi a recuperação do diálogo social. A reativação das mesas nacionais de negociação no setor publico federal, a valorização da negociação coletiva, a retomada do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, do Conselho de Desenvolvimento Industrial, do Conselho de Segurança Alimentar, entre tantos outros, a reconstrução da interlocução entre governo, trabalhadores e empregadores e a ampliação dos acordos e convenções coletivas devolveram concretude à atuação sindical. Quando a negociação produz ganhos salariais, melhora as condições de trabalho, amplia direitos e protege os trabalhadores diante das mudanças produtivas, o sindicato volta a ser percebido como instrumento efetivo de transformação da realidade.

Mas seria insuficiente explicar a retomada da sindicalização apenas pela melhora do mercado de trabalho. Creio que um fenômeno mais profundo em curso move as bases sindicais.

Vivemos um período de intensas transformações tecnológicas, ambientais, demográficas, produtivas e geopolíticas. Inteligência artificial, plataformas digitais, reorganização das cadeias globais, transição ecológica e mudanças nas formas de contratação estão redefinindo ocupações, profissões, competências e relações de trabalho. Cresce a percepção de que os riscos deixaram de ser individuais e passaram a ser estruturais.

Nesse contexto, o sindicato recupera a função histórica de constituir um escudo protetor coletivo diante de transformações que nenhum trabalhador consegue enfrentar isoladamente.

A pesquisa nacional realizada pelas Centrais Sindicais com o Instituto Vox Populi (2025) confirma essa percepção. Ela revela elevada valorização social do sindicalismo, disposição de filiação e grande convergência em torno das prioridades apontadas pelos trabalhadores: valorização dos salários, geração de empregos de qualidade, formação profissional permanente, redução da jornada de trabalho, superação da escala 6×1, saúde e segurança no trabalho e ampliação da proteção social. A Pauta da Classe Trabalhadora apresentada pelas Centrais traduz essas demandas em diretrizes de ação e propostas de políticas publicas.

Esses resultados sugerem que a retomada da sindicalização representa algo maior do que um aumento do número de associados. Ela indica um reencontro entre sindicatos e sua base social. Esse reencontro, entretanto, impõe novos desafios ao próprio sindicalismo.

O sindicato do século XXI continuará negociando salários e defendendo direitos, mas sua atuação precisará ser muito mais ampla, além das fundamentais negociações no âmbito da categoria. Caberá participar da formulação das políticas de desenvolvimento, acompanhar os impactos da inteligência artificial e das novas tecnologias, negociar processos de transição produtiva, defender a formação continuada dos trabalhadores, contribuir para a construção de uma transição ecológica justa, atuar pela efetiva proteção dos empregos e da renda, cuidar da previdência social, fortalecer mecanismos permanentes de diálogo social. Atuar para implementar novos âmbitos de negociação de amplitude regional, setorial, cadeia produtiva, temática e internacional. Assim como, aprimorar a a oferta de serviços clássicos e essenciais que são demandados pelas categorias (assistência médica e odontológica; convênios para compras; assistência jurídica; orientação profissional; formação em saúde e segurança; lazer, esporte e cultura, entre outros).

Isso significa compreender que o trabalho voltou a ocupar posição estratégica no desenvolvimento nacional e continua essencial na vida das trabalhadoras e dos trabalhadores.

As grandes economias disputam hoje investimentos, tecnologia e cadeias produtivas porque disputam produtividade, conhecimento e empregos de qualidade. Entramos na era da geopolítica mundial do trabalho. Nesse ambiente, sindicatos deixam de ser apenas instituições voltadas para a negociação das relações de emprego e passam a integrar a governança democrática das transformações econômicas e sociais em cada país e no mundo.

O crescimento da sindicalização, portanto, não deve ser visto como um ponto de chegada, mas como o início de um novo ciclo que precisa ser alimentado com muito trabalho de base, pautas representativas, lutas estratégicas e muito compromisso com mudanças e avanços.

Consolidar o aumento da sindicalização dependerá da capacidade do movimento sindical de ampliar sua presença nos locais de trabalho, incorporar a representação e organização de todos os trabalhadores inseridos em diferentes formas de ocupação (autônomo e por conta-própria, plataformizados, empreendedores, cooperados, trabalhadores domésticos, pejotizados), fortalecer sua produção de conhecimento, atuar nos territórios e participar da construção de um projeto nacional de desenvolvimento que coloque o trabalho no centro das estratégias econômicas, sociais e ambientais do país.

Trabalhadores mais organizados significam relações de trabalho mais equilibradas, negociação coletiva mais robusta, maior capacidade de enfrentar as transições em curso e uma democracia mais forte. O reencontro da classe trabalhadora com seus sindicatos é, ao mesmo tempo, uma boa notícia para o mundo do trabalho e um ativo estratégico para o desenvolvimento do Brasil.

Notas

1 Sociólogo, coordenador do Fórum das Centrais Sindicais, membro do CDESS – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República, membro do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil, Enviado Especial para COP-30 sobre Trabalho, Coordenador do Grupo de Facilitação do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, membro do Comitê Diretivo do Observatório do Trabalho Decente do Conselho Nacional de Justiça, consultor e ex-diretor técnico do DIEESE (2004/2020).

2 IBGE: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45174-com-taxa-de-8-9-sindicalizacao-cresce-pela-primeira-vez-desde-2012

 

Fonte: Outras Palavras

Nós apoiamos

Nossos parceiros