Luciano Fazio*

A vantagem de Flávio Bolsonaro no 1º turno das eleições presidenciais, neste 4 de outubro, não pode ser explicada por um único fator. Ela resulta da combinação de pelo menos três fenômenos: a persistente deslegitimação moral do Partido dos Trabalhadores (PT); a capacidade da direita de mobilizar medos e valores identitários; e a crescente dificuldade da esquerda para se comunicar, se organizar e apresentar um projeto político capaz de dialogar com a sociedade contemporânea.

A esses fatores somam-se a questão da segurança pública, o papel das Igrejas evangélicas, as novas formas de informação proporcionadas pelas redes sociais e a crise de credibilidade de algumas instituições, particularmente o Supremo Tribunal Federal (STF).

A DESLEGITIMAÇÃO MORAL DO PT

Nos últimos anos, muitos brasileiros passaram a associar o PT à corrupção. O impeachment de Dilma Rousseff e os processos judiciais contra Lula contribuíram para consolidar a imagem do partido como estruturalmente corrupto.

Apesar de formalmente realizado dentro das regras constitucionais, hoje, boa parte da sociedade interpreta o impeachment de Dilma como um golpe parlamentar. Também permanecem até hoje no imaginário coletivo as marcas das condenações de Lula na Lava Jato, embora tenham sido posteriormente anuladas pelo STF, permitindo sua libertação e seu retorno à vida política.

Em suma, politicamente, a representação acabou se sobrepondo aos fatos. Consolidou-se uma desconfiança permanente em relação ao PT, dificultando – quando não inviabilizando – uma avaliação objetiva de suas realizações.

VALORES, RELIGIÃO E MEDO DA MUDANÇA

Outro fator é a centralidade dos temas morais e de costumes. Família, aborto, homossexualidade, transexualidade e educação sexual tornaram-se elementos importantes da disputa política.

A direita conseguiu construir uma narrativa segundo a qual a família tradicional, a religião, a moral sexual e a autoridade estariam ameaçadas pela esquerda, como se aceitar as diferenças significasse atacar a tradição. A incoerência de algumas dessas posições não diminui sua força eleitoral, porque esses temas funcionam como símbolos de pertencimento e identidade.

Nesse contexto, as Igrejas evangélicas, sobretudo pentecostais e neopentecostais, adquiriram grande capacidade de mobilização social e política. Embora os evangélicos não sejam um bloco homogêneo, parte significativa de suas lideranças passou a construir redes capilarizadas de relações, solidariedade, comunicação e também de forte orientação política dos fiéis.

De seu lado, a Igreja Católica perdeu parte de sua capacidade de presença social e política. Depois do declínio da influência da teologia da libertação, a atuação dela passou a se concentrar no culto e nos sacramentos.

SEGURANÇA PÚBLICA E NOVAS FORMAS DE INFORMAÇÃO

A violência e a insegurança, problemas reais da sociedade brasileira, geram um medo que o bolsonarismo soube transformar em apoio a uma proposta política simples: mais armas, maior poder para a polícia, menos restrições à atuação dos agentes de segurança e maior rigor contra os criminosos. Já a esquerda não encontrou uma proposta de segurança pública igualmente simples e convincente.

O bolsonarismo também soube utilizar as novas formas de informação. As redes sociais e os aplicativos de mensagens permitem o acesso a informações cuja veracidade é dificilmente checada e substituíram, em boa parte, a imprensa escrita, o rádio e a televisão. Os algoritmos favorecem conteúdos capazes de provocar emoções fortes, como medo, indignação ou entusiasmo. Assim, análises mais articuladas competem em desvantagem com mensagens fáceis de compartilhar.

Formam-se, assim, bolhas informativas nas quais as pessoas recebem principalmente conteúdos que confirmam suas próprias convicções. A força da narrativa pode, assim, superar a própria força dos fatos.

OS LIMITES DA ESQUERDA

O bolsonarismo foi também favorecido pelos limites do campo progressista, historicamente hegemonizado pelo PT.

A esquerda perdeu parte importante de sua antiga inserção social. Associações de bairro, comunidades eclesiais de base e organizações sindicais já não desempenham o mesmo papel. Onde a esquerda perdeu presença, as Igrejas evangélicas, influenciadores, redes sociais e organizações conservadoras ocuparam o espaço, com novas lideranças.

Enquanto isso, aos 80 anos, Lula continua sendo de longe a principal figura nacional da esquerda, sem que tenham surgido novas lideranças nacionais desse campo.

O campo progressista também não soube comunicar bem suas realizações. Políticas sociais importantes — como programas de transferência de renda e outras medidas compensatórias — foram assimiladas pelos beneficiários como direitos adquiridos. Como os governos de direita mantêm essas políticas, o mérito de sua criação deixa de ser reconhecido.

A dificuldade de apresentar um projeto de mudança capaz de empolgar os eleitores é agravada pelo presidencialismo de coalizão. Lula enfrentou um Congresso dominado pelo centrão e pelas forças conservadoras, o que obrigou o Executivo a negociar permanentemente e limitou a possibilidade de realizar reformas estruturais.

UMA CAMPANHA NA DEFENSIVA E A CRISE DO STF

A campanha eleitoral foi marcada por decisões judiciais e acusações de corrupção. O debate foi deslocado para um terreno no qual a esquerda tende a ficar na defensiva. Faltou ênfase no balanço crítico do governo e em propostas para o futuro, inclusive sobre temas como Previdência Social, reforma tributária e reforma política.

Nos últimos 60 dias, a esquerda não conseguiu transmitir mensagens claras que respondessem ao desejo de mudança de boa parte do eleitorado. Preocupada em justificar sua atuação, priorizou a defesa do existente, sem grande apelo eleitoral. No limite, pode até ter passado a impressão de estar defendendo o “sistema”.

Há também a crise de credibilidade do STF. As condenações de Jair Bolsonaro e de envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023, bem como a atuação contra as chamadas fake news e os ataques às instituições democráticas, provocaram críticas sobre uma possível politização da Justiça e uma excessiva concentração de poderes. Essa percepção é pouco justificada pela avaliação jurídica dos processos, mas, politicamente, é importante.

A direita conseguiu transformar uma questão complexa — o equilíbrio entre liberdade de expressão, combate à desinformação, defesa da democracia e limites do Poder Judiciário — em uma narrativa simples: o “sistema” quer controlar o país, e o bolsonarismo seria a força capaz de enfrentá-lo.

UMA VITÓRIA CONSTRUÍDA SOBRE O MEDO E A NARRATIVA

Em parte, a direita chegou à frente em um país que se tornou mais conservador, mas não apenas por isso. Conseguiu também oferecer uma explicação simples para medos e insatisfações reais: corrupção, criminalidade, mudanças nos costumes, perda de referências religiosas, desconfiança nas instituições, falta de percepção de avanços significativos. Identificou e reuniu esses elementos reais, os simplificou e os transformou em uma narrativa que quase a metade dos eleitores considerou coerente.

Seria, porém, um erro atribuir tudo à manipulação. O campo progressista realmente enfrentou problemas de gestão; a esquerda realmente perdeu parte de sua presença social; o governo Lula realmente encontrou grandes dificuldades no Congresso; a criminalidade é um problema real; e algumas decisões do STF provocaram controvérsias.

Mais do que tudo, embora tenha realizado políticas sociais importantes, a esquerda não conseguiu transformá-las em uma narrativa política duradoura. Melhorou alguns indicadores, mas teve dificuldade em comunicar tais conquistas e mobilizar o eleitorado. Defendeu a democracia, mas deixou para a direita grande parte do discurso sobre segurança e ordem.

Nos 20 dias que antecedem o segundo turno eleitoral, ao campo progressista cabe procurar os eleitores com uma mensagem clara de mudança e de futuro melhor, apresentar metas para os próximos 4 anos e permitir que eles voltem a sonhar e a acreditar no governo Lula.

(*) Matemático pela Università degli Studi de Milão/Itália, especialista em Previdência pela FGV e autor do livro "O que é previdência do servidor público", Ed. Loyola, 2020.

Nós apoiamos

Nossos parceiros