Nathália Queiroz*

O resultado das urnas em 2026 expõe um problema que vai muito além de uma campanha eleitoral: a dificuldade de parte da esquerda brasileira de traduzir suas pautas e disputar a atenção de um país que mudou.

Dois dias depois do primeiro turno, não faltam diagnósticos. A campanha de Lula se reuniu, falou em combater a abstenção, buscar o eleitor de centro e rever a comunicação. Há movimento, mas ainda é difícil enxergar uma mudança proporcional ao tamanho do problema. Talvez porque ele não tenha começado no domingo.

Uma parcela da esquerda continua falando a partir do que ela própria considera importante. A direita aprendeu a falar a partir daquilo que consegue fazer o eleitor perceber como importante.

Soberania, defesa da democracia, instituições. Nada disso é irrelevante. Mas política não funciona como uma prova em que vence quem apresenta o argumento tecnicamente mais correto.

O eleitor que acorda cedo, pega trânsito, calcula o preço do mercado, olha o aluguel, espera atendimento de saúde, se preocupa com o emprego e tem medo da violência não organiza necessariamente suas prioridades a partir da agenda de um movimento. É o movimento que precisa encontrá-lo onde ele está.

Talvez esse seja um dos grandes méritos políticos da direita nos últimos anos: ela aprendeu a dar linguagem política a sentimentos que já existem. Fala de dinheiro, segurança, família, indignação, oportunidade, medo e futuro. Fala no idioma em que as pessoas vivem.

Isso ajuda a explicar sua força nas redes, mas seria um erro resumir tudo ao digital. Postar vídeo vertical não significa compreender a comunicação de 2026. Ter milhões de seguidores também não. Existe uma diferença enorme entre estar nas redes sociais e entender as redes sociais.

O bolsonarismo construiu uma rede de deputados, vereadores, influenciadores, comunicadores e lideranças locais que pautam assuntos, criam narrativas, apresentam novos nomes e transferem visibilidade.

Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e tantos outros não estão apenas divulgando candidatos. Não estão apenas divulgando a direita. Estão ajudando a construir a direita. E isso não nasce em outubro, é trabalho de anos.

Mobilizaram o digital por meio de partidos, prefeitos, governadores, lideranças regionais, grupos religiosos, empresários e alianças pragmáticas. Ocuparam os partidos e construíram uma rede que funciona para além deles.

Parte da esquerda segue um caminho diferente. Continua muito dependente de partidos, governos e lideranças tradicionais não só para organizar sua estratégia, mas também sua comunicação. A mensagem é formulada no centro, muitas vezes em linguagem excessivamente rebuscada, e depois tratada como universal: define-se o argumento, o enquadramento e até a forma de falar que todos devem reproduzir. Só que públicos diferentes não chegam à política pelas mesmas portas.

A força de uma rede está justamente em permitir que diferentes personagens traduzam uma visão política para públicos diferentes, sem que todos precisem repetir o mesmo discurso.

O bolsonarismo não construiu apenas seguidores, construiu intermediários políticos próprios. Pessoas que selecionam temas, interpretam acontecimentos e oferecem diariamente à sua audiência uma forma de enxergar a política.

A esquerda também tem nomes capazes de fazer isso. O problema é que, muitas vezes, eles ainda funcionam mais como ilhas do que como rede. E isso mostra que a questão não é apenas tecnológica, mas também de linguagem.

Parte da esquerda ainda parece confundir complexidade com sofisticação e simplicidade com superficialidade. Uma ideia não fica menos séria porque pode ser explicada em trinta segundos. E uma frase não fica mais inteligente porque precisa de quatro conceitos acadêmicos para fazer sentido.

Traduzir não é empobrecer. Política precisa fazer sentido dentro da vida concreta das pessoas. E existe um eleitorado em disputa. A pergunta é: quem está realmente tentando conversar com ele?

A direita construiu uma estrutura capaz de transformar sentimentos em mensagem, mensagem em identidade e identidade em organização.

A esquerda não precisa copiar o conteúdo ou suas pautas da direita, mas precisa entender que estudar aquilo que funciona não significa aderir às ideias do adversário. E, principalmente, precisa abandonar a ideia de que existe uma única linguagem capaz de falar com todo mundo.

A pior resposta possível depois de 2026 seria continuar dizendo as mesmas coisas, para as mesmas pessoas, da mesma forma, esperando que, desta vez, quem está do outro lado finalmente entenda. Talvez seja a esquerda que precise entender primeiro.

Política não é apenas ter uma boa pauta. É conseguir conectá-la à vida real. Porque quem não consegue disputar a linguagem e a atenção corre o risco de continuar falando e descobrir tarde demais que boa parte do país já parou de ouvir.

(*) Gestora de Políticas Públicas, Consultora em Relações Governamentais e Analista Política

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