Por dentro da máquina pública federal, os números desmentem Daniella Marques
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Coordenadora econômica de Flávio Bolsonaro fala em 12 milhões de servidores e aposentadorias anuais de 20%, mas os dados mostram realidade bem diferente.
Marcos Verlaine*
A ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), e cotada para integrar eventual governo, erra ao dimensionar o funcionalismo público federal. Ao defender a substituição de servidores por IA (inteligência artificial), ela afirmou que o País tem 12 milhões de funcionários públicos e questionou o custo dessa estrutura.
“Na era da inteligência artificial, quantas carreiras poderão ser substituídas, operacionais e administrativas, promovendo uma reforma administrativa digital, enxugando o contingente atual de 12 milhões de servidores, que custam a nós, pagadores de impostos, R$ 450 bilhões por ano?”, declarou, em evento sobre competitividade e gestão pública.
Os números não correspondem ao funcionalismo da União. O contingente de 12 milhões não pode ser atribuído aos servidores federais: trata-se de ordem de grandeza associada ao conjunto do serviço público brasileiro, que inclui União, estados e municípios. Além disso, os gastos com pessoal não devem ser confundidos com todas as despesas de manutenção da máquina pública.
Quantos são os servidores federais?
O Executivo federal conta com aproximadamente 579 mil servidores civis ativos, conforme o recorte informado. O número é muito inferior aos 12 milhões citados por Daniella. É necessário, porém, distinguir esse universo dos levantamentos mais amplos do Portal da Transparência, que podem incluir outros Poderes, militares e diferentes vínculos funcionais.
O Executivo federal reúne mais de 120 carreiras, com profissionais que executam serviços essenciais à população. Entre os maiores contingentes civis estão os técnicos-administrativos em educação e os professores das universidades federais, dos institutos federais e de outras instituições públicas de ensino.
Também fazem parte dessa estrutura os profissionais da saúde, da fiscalização, da pesquisa científica, da gestão, da arrecadação e do atendimento direto ao cidadão. Não se trata, portanto, de conjunto homogêneo de funções administrativas que possam ser simplesmente eliminadas ou transferidas para sistemas de inteligência artificial.
As Forças Armadas constituem outro universo: o efetivo autorizado para a ativa informado pelo Ministério da Defesa é de 341.260 militares. Esse contingente deve ser contabilizado separadamente do funcionalismo civil.
Aposentadorias não chegam a 20% ao ano
A afirmação de que 20% dos servidores federais se aposentam anualmente também não se sustenta nos dados apresentados.
As estimativas para o Poder Executivo federal apontam entre 15 mil e 20 mil aposentadorias por ano. A projeção de 153,6 mil aposentadorias entre 2025 e 2034 equivale à média de aproximadamente 15,4 mil por ano.
Considerando a referência de 579 mil servidores civis ativos, essa média corresponde a cerca de 2,7% do contingente por ano. Não a 20%. A comparação é ilustrativa, pois o número de aposentadorias projetadas e o estoque de servidores ativos podem variar ao longo do período.
Entre 2019 e 2023, aproximadamente 50,3 mil servidores se aposentaram, segundo os dados históricos informados. O ano de 2019 registrou pico atípico, associado à antecipação de aposentadorias antes da entrada em vigor de novas regras previdenciárias. Portanto, não é correto transformar esse movimento em taxa anual permanente.
Quanto custa a máquina pública?
As despesas com pessoal da União ultrapassam R$ 400 bilhões por ano, segundo os dados apresentados. Já os gastos administrativos gerais — água, energia, telefone, limpeza, vigilância, passagens e combustíveis — somaram R$ 72,7 bilhões em 2025, o maior valor em 9 anos, conforme informações atribuídas à Secretaria do Tesouro Nacional.
São despesas distintas: uma corresponde à remuneração do funcionalismo; a outra, aos custos de funcionamento da estrutura administrativa. Somá-las ou compará-las exige atenção aos critérios contábeis e ao período de referência.
O Orçamento federal de 2026, sancionado pela Lei 15.346, está estimado em R$ 6,54 trilhões. Esse montante engloba despesas de diferentes naturezas, incluindo Previdência, transferências, políticas sociais, investimentos, custeio e serviço da dívida. Não representa dinheiro disponível para livre remanejamento.
IA não substitui o Estado
A tecnologia pode automatizar tarefas repetitivas, agilizar processos e melhorar a prestação dos serviços públicos. Isso, porém, não significa que possa substituir indiscriminadamente o trabalho de servidores responsáveis por decisões técnicas, fiscalização, educação, saúde e atendimento à população.
Reforma administrativa baseada em dados precisa distinguir funções automatizáveis de atividades que exigem responsabilidade profissional, conhecimento especializado e presença humana. Também deve considerar a reposição de profissionais em áreas com risco de perda de capacidade operacional.
A proposta de Daniella Marques parte de números que confundem a dimensão do funcionalismo e a dinâmica das aposentadorias. Antes de defender cortes ou substituições em massa, a equipe econômica de Flávio Bolsonaro deveria apresentar dados comparáveis, identificar quais funções pretende automatizar e explicar como garantiria a continuidade dos serviços públicos.
Modernizar o Estado é necessário. Confundir milhões de servidores de diferentes esferas com o funcionalismo federal e inflar a taxa anual de aposentadorias não é modernização: é construir diagnóstico equivocado, para dizer o mínimo, a fim de justificar a política de redução da máquina pública.
Síntese em números da máquina pública federal
O Poder Executivo federal conta com aproximadamente 579 mil servidores civis ativos, segundo dados do Painel Estatístico de Pessoal do Governo Federal. Já a população brasileira era de 203.062.512 habitantes, de acordo com o Censo Demográfico de 2022 do IBGE.
- Total de servidores civis ativos: cerca de 579 mil pessoas (incluindo estatutários, temporários e comissionados).
- Trabalhadores temporários: aproximadamente 34 mil.
- Cargos comissionados e funções de confiança: cerca de 50 mil.
- Servidores militares ativos: cerca de 370 mil integrantes das FFAA.
Um país, população e números para comparar
A França tem cerca de 5,85 milhões de servidores públicos, dos quais 2,587 milhões atuam na função pública de Estado, em população estimada em 69,1 milhões de habitantes.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
