Os presidiários e a mentira dos 73%
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Luciano Fazio*
No debate televisivo da Band entre os candidatos à Presidência, em 18 de outubro de 2026, Flávio Bolsonaro perguntou a Lula: “Pode explicar por que 73% dos presidiários votaram em você?”. Em seguida, afirmou que o estuprador, o assaltante e a pior espécie de criminosos presos teriam votado em Lula, como se ele fosse o candidato do crime no Brasil.
Fiquei intrigado, pois me lembrei de que os presos no Brasil perdem o direito de voto. Será que eu estava errado? Então, fui conferir a fala do Flávio.
Hoje, no Brasil, há 965 mil pessoas privadas de liberdade, quase 1 milhão. Entre elas, condenados definitivamente: 480 mil nos presídios e 233 mil em prisão domiciliar. Eu estava correto: esses não votam, pois, com a condenação, têm seus direitos políticos suspensos durante o período da reclusão.
Há também 248 mil presos provisórios, aqueles que aguardam julgamento. Esses não foram condenados e, assim, podem votar. Não se pode concluir que esses votos são de criminosos, pois o preso provisório poderá ser julgado culpado ou inocente. O futuro nos dirá.
No entanto, no 1º turno das eleições de 2026, apenas 12.800 presos provisórios, menos de 6% do total, tinham título de eleitor. E, ao todo, nas seções eleitorais instaladas dentro dos presídios, tivemos 11.190 votos válidos para presidente. Desses, 72,6% foram para Lula.
Nem todos esses 11 mil votos foram de presos. Houve também os votos de mesários, agentes de segurança e outros servidores que estavam em serviço nessas prisões no dia da votação e votaram nesses locais.
Ou seja, os dados nos dizem que as seções eleitorais instaladas em presídios registraram votos válidos equivalentes a cerca de 1,2% da população privada de liberdade. Isso nos impede de tirar conclusões sobre o voto dos demais presos, que não votaram.
Em suma, ao dizer que os piores criminosos de dentro dos presídios votaram em Lula, Flávio distorce a realidade. Ele mente.
No debate, Flávio Bolsonaro nos mostrou seu modo de trabalhar. Tudo indica que ele agiu de caso pensado. Não se confundiu nem falou sem pensar. A escolha deliberada dele foi construir um fato que não existe para impressionar o eleitor e desqualificar o adversário. Astuto, utilizou um percentual que consta nos relatórios da Justiça Eleitoral, mas que se refere a outra realidade, para confundir o eleitor. Essa esperteza, contudo, não transformou uma mentira em verdade.
Para mim ficou uma lição. Não posso ser ingênuo e acreditar nas falas dos candidatos, antes de conferi-las. Sem essa verificação, corro o risco de decidir o meu voto com base em mentiras.
(*) Matemático pela Università degli Studi de Milão/Itália, especialista em Previdência pela FGV e autor do livro "O que é previdência do servidor público", Ed. Loyola, 2020.
