A extrema direita entra em isolamento e o cerco político ao bolsonarismo se fecha
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Marcos Verlaine*
Vitória de Lula reorganiza tabuleiro político, empurra direita tradicional para longe de Bolsonaro e abre nova etapa de disputa institucional, social e digital contra o reacionarismo.
A vitória expressiva de Lula (PT), por mais de 4 milhões de votos de vantagem no segundo turno, não representou apenas a derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL). Produziu também mudanças importantes na correlação de forças políticas do País.
O bolsonarismo, que durante anos tentou se apresentar como expressão hegemônica da direita brasileira, começa a enfrentar processo de isolamento que ultrapassa as urnas e alcança o Congresso, as redes digitais e as ruas.
Há dado político incontornável nesta reorganização: a direita tradicional não quer mais Bolsonaro. A esquerda, nunca quis. Embora por razões e interesses diferentes, setores que frequentemente se enfrentam encontram agora ponto de convergência na necessidade de conter a influência da extrema direita e impedir que o bolsonarismo continue ditando os rumos da política nacional.
Essa movimentação tem consequências concretas no Parlamento. A perspectiva de recondução de Hugo Motta (Republicanos-PB), na Câmara, e Davi Alcolumbre (União-AP), no Senado, às respectivas presidências das Casas expressa a disposição de preservar articulação institucional que não se confunde com o projeto bolsonarista.
O PL, legenda que abriga a principal força parlamentar da extrema direita, corre o risco de ficar à margem dos espaços mais relevantes de comando e decisão de ambas as Casas do Congresso.
Não se trata de imaginar que a direita tradicional tenha se convertido à democracia popular ou aderido ao programa de Lula. Os interesses continuam distintos e, em muitos casos, antagônicos aos do governo. O que está em curso é algo mais pragmático: a percepção de que Bolsonaro e seus seguidores se tornaram passivo político, capaz de comprometer alianças, ampliar conflitos e dificultar a governabilidade.
Isolamento não se faz apenas no Parlamento
Mas seria erro analisar esse movimento exclusivamente pela engenharia parlamentar. O isolamento da extrema direita é também disputa pela legitimidade política e pela capacidade de influenciar a sociedade. E, nesse terreno, há 2 frentes decisivas: as redes digitais e a mobilização popular.
Durante muito tempo, a esquerda tratou as redes como território e espaço secundários, quando não como simples instrumento de divulgação de suas posições.
O bolsonarismo, ao contrário, compreendeu desde cedo que esses espaços eram ambientes de organização, convencimento, mobilização e disseminação de suas ideias. Construiu ali máquina de comunicação permanente, que ajudou a alimentar a base social e a pautar o debate público.
Essa realidade começou a mudar. Os setores progressistas perceberam que não bastava denunciar a desinformação ou reagir às provocações da extrema direita. Era necessário ocupar o território digital, disputar narrativas, organizar comunidades, produzir conteúdo e dialogar diretamente com a população.
A campanha eleitoral demonstrou que as redes não são propriedade privada do bolsonarismo. São, também, espaço de resistência, organização e disputa política real.
Nas ruas, o movimento é igualmente significativo. As grandes manifestações populares em defesa da democracia, dos direitos sociais e contra a ameaça de retorno do bolsonarismo tiveram papel relevante na construção do ambiente político que permitiu a vitória de Lula.
A mobilização não substituiu a disputa eleitoral, mas ajudou a dar corpo social à resistência democrática. Mostrou que a política não se resolve apenas nos gabinetes, nos partidos ou nas telas dos celulares.
A vitória de Lula foi, nesse sentido, resultado da combinação de fatores: articulação política, capacidade eleitoral, comunicação digital e mobilização social de massa como há muito não se via. A defesa da democracia deixou de ser apenas palavra de ordem institucional para ganhar expressão nas ruas e nas relações cotidianas.
Fevereiro será o divisor de águas
A nova legislatura, que começa em fevereiro de 2027, deverá tornar-se mais visível essa mudança de cenário. A recondução de Hugo Motta e Davi Alcolumbre, com o apoio do PT e de outras forças políticas progressistas e de esquerda, poderá representar derrota adicional para a pretensão bolsonarista de controlar o comando do Legislativo. A disputa pelas comissões estratégicas será outro capítulo dessa queda de braço, em que o bolsonarismo também deverá amargar nova derrota.
O PL pode até ostentar as maiores bancadas em ambas as Casas legislativas, mas tamanho parlamentar não significa, automaticamente, hegemonia política. A capacidade de construir maiorias, estabelecer acordos e ocupar espaços de comando depende de articulação. E é justamente aí que a extrema direita enfrenta dificuldades: a postura de confronto permanente transforma aliados potenciais em adversários e restringe a margem de negociação e manobra do partido de Bolsonaro.
Isso não significa que o bolsonarismo esteja derrotado ou que tenha perdido força social. Seria ingenuidade subestimar a corrente política que conserva milhões de votos, presença institucional e influência nas redes. O isolamento em curso é político e institucional, não o desaparecimento da base eleitoral. A extrema direita continuará tentando transformar a derrota em combustível para a radicalização.
Por isso, o desafio das forças democráticas, progressistas e de esquerda não é apenas impedir que o PL controle as presidências da Câmara e do Senado ou fique com as principais comissões. É construir maioria política e social capaz de enfrentar o projeto reacionário, defender direitos, ampliar conquistas e dar sustentação às transformações de que o País necessita e projetou na reta final da eleição presidencial.
A recondução de Motta e Alcolumbre poderá ser passo importante nessa direção. Mas não se deve confundir aliança parlamentar circunstancial com coalizão comprometida com programa de desenvolvimento, soberania nacional e justiça social. A direita tradicional pode se afastar de Bolsonaro sem abandonar as posições conservadoras e compromissos com o poder econômico, que freia o ímpeto de desenvolvimento do País.
A esquerda precisa compreender essa diferença e não trocar protagonismo político por acomodação institucional. O governo Lula terá de aproveitar a nova correlação de forças para avançar na agenda, sem abrir mão da mobilização popular como instrumento de pressão e conquista política e social. A aprovação da redução da jornada e o fim da escala 6x1 bem como a reeleição de Lula demonstraram isso.
O recado das urnas foi contundente: o Brasil rejeitou a volta do bolsonarismo ao Palácio do Planalto. Agora, o recado precisa ser traduzido em ação política permanente. Nas instituições, nas ruas e nas redes digitais.
O bolsonarismo perdeu a Presidência. Agora começa a disputa para que também perca a capacidade de sequestrar a agenda política nacional. O isolamento da extrema direita não será obra de acordo de cúpula, mas da combinação entre unidade democrática, organização popular e disputa de ideias. É nesse terreno que se decidirá se a vitória eleitoral de Lula será apenas conquista nas urnas ou o ponto de partida de nova etapa política para o País.
Derrotar a extrema direita no Congresso será parte significativa do histórico resultado que redundou na conquista do quarto mandato de Lula à Presidência da República.
(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
